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segunda-feira, 9 de julho de 2007

Crônicas de Vários Amores Loucos

por Wanderson Pimenta


Antes de existir o que alguém resolveu chamar de arrocha, existia Júlio Nascimento. Júlio dominou as paradas de sucesso do Nordeste antes do fim do século passado com um som dançante, meloso e simples, que uns diziam ser o legítimo brega, outros a velha seresta. E foi um álbum intitulado "Em ritmo de seresta", que retirou sua música de dentro dos cabarés e a jogou definitivamente nas rádios e nos sons dos carros de muita gente. Nessa época, Júlio Nascimento se dava ao luxo de desistir de show na última hora mesmo contando com multidões à sua espera, e quando resolvia subir no palco, subia tão bêbado que mal conseguia empunhar o microfone.

Lançado pela Gema como K7 em meados da década de 90 e reeditado em CD em novembro de 2002, mesma gravadora que revelou Lairton e Seus Teclados para o Brasil e que já ostentou em seu time nomes da estirpe de Wanderlei Cardoso e Waldick Soriano, "Em ritmo de seresta" é a crônica da vida do pé-inchado que se ausenta de casa por alguns meses para trabalhar, seja como garimpeiro ou caminhoneiro, e quando volta, sua mulher já está com outro. Todas as músicas estão em primeira pessoa, como as clássicas "Leidiane" e "Dalziza", onde Júlio Nascimento narra a história do homem que parte rumo ao garimpo e quando retorna descobre que sua mulher "entregou o amor a quem quiser", como ele enfatiza em "Leidiane".

O teclado é a base de todo o disco e os timbres strings serpenteiam por todas as canções, com uma segurada nos acordes no início de cada faixa que não tem solo. E no mesmo mote do garimpeiro que parte rumo ao trabalho e volta com dinheiro no bolso, mas perde a mulher, estão "Chegada do garimpo" e "Lembranças do garimpo", terceira e quarta canção das 17 que compõem o disco.

Não existe um roteiro lógico entre as músicas. "Vou te matar de prazer" dá uma aula de sedução no bom estilo Júlio Nascimento, mesmo que na seqüência, "A volta da Leidiane", seja a canção do corno que já se conformou, "Luana" possua a mórbida temática do apaixonado que sonha com sua musa e suplica à lua a volta dela, lembrando os lúgubres escritos de Álvares de Azevedo, e "Como um dia de sol", que pode embalar qualquer casal em princípio de namoro. Em "A mãe da Leidiane", Júlio diz que não "prestar" é mal de família e em "A volta da Dinalva", ele prepara o terreno para a música mais doída do disco: "Dinalva". "Dinalva" transporta o ouvinte para uma trágica cena de flagrante de adultério, aonde o interlocutor ao chegar em casa e ouvir sua mulher gemendo, ameaça fazer o uso de sua arma de fogo. Júlio sabe sofrer junto com seus personagens, amar suas musas com intensidade peculiar e narrar a saga do homem traído com a precisão que até então poucos haviam conseguido.

Em "A volta da lua", a décima segunda canção de amor do disco, depois de várias doses de uísque o teclado é quem começa a cambalear. Os solos começam a se alternar como se os dedos do tecladista deslizasse por qualquer tecla, sem muito nexo. O anúncio do telefone de contato ganha destaque enquanto os primeiros acordes de "Deusa" e "Casa vazia" começam indefinidos, ganham sentido quando a quase rascante voz de Júlio Nascimento entoa as letras, mas retornam ao desarranjo do princípio nos solos finais.

Já sem fôlego, "Caminhão amigo", uma espécie de paródia descarada do sucesso do rei Roberto Carlos "120...150...200 km por hora" e a tapa buraco "Se você me prometeu" com seus timbres metalizados, são os motivos que quase tornam "Em ritmo de seresta" insosso em seu epílogo. Mas a última canção, "Sandra meu novo amor", em pouco mais de um minuto, fecha "Em ritmo de seresta" com a classe de suas primeiras músicas, revelando o talento nato de Júlio em lidar com as fêmeas como título de canções.

E é só procurar um boteco cinzento, colocar "Em ritmo de seresta" no som do carro o mais alto possível, ter em mãos uma garrafa com ¼ de cachaça, mortadela cortada em cubos e alguns limões, para começar a falar mal daquela desgraçada que te faz sofrer. Mesmo sabendo que isso só é possível no interior da Bahia.

Messias? Eu?

por Marcel Bane


É melhor rezar pelos seus pecados. O profeta que anunciou a chegada do messias gay, que viria redimir a humanidade, saído de um filme pornô dos anos 70 está de volta. Depois do tímido início com o belíssimo e intimista álbum homônimo, depois de ter sido atirado à condição de messias gay ele mesmo, de ter freqüentado a lista de melhores de 2001 com o pungente poses, e de dois álbuns que exalavam uma melancolia esperançosa, want I e want II, Rufus Wainwright lançou sua quinta missiva, este Release the Stars, em maio. Filho de dois ícones do folk canadense dos anos 60, Loudon Wainwright III e Kate McGarrigle, Rufus herdou do pai a habilidade de escrever canções simples, que acertam inexoravelmente o coração, como mísseis teleguiados. Da mãe, o faro instintivo para tecer melodias delicadas ao piano, a paixão pela ópera e pela música clássica. Longe da esquizofonia que acomete artistas que tentam misturar estilos diversos em uma salada musical, que muitas vezes soa estragada, o nosso bardo chega a um denominador comum. O estilo Rufus de fazer música. E abra-se um leque bem amplo para dar conta do quão variado ele pode ser: Vaudeville, rock, jazz, orquestrações rebuscadas, folk, tudo absolutamente pop. O mundinho epecializado em imprimir rótulos em páginas vazias apressou-se em aplicar-lhe a pecha de Pop-barroco. Mas e os beatles de Sgt. Pepper, já não eram exatamente pop e barrocos? Não à toa, Release the Stars é filho legítimo de uma transa entre os Beatles de Sgt. Pepper e o Elton John de Goodbye Yellow Brick Road.


Rufus, o batista, parece ter tomado um porre de Bourbon na noite de Sansouci, contemplando belos rapazes da sacada de seu Chatêau, e vomitou um lindo álbum, sem direito à ressaca no dia seguinte. O disco abre com um direto de esquerda na mandíbula dos que o reivindicam para si. Nada mais chato que gay militante, que precisa de um porta vozes, de alguém que carregue sua bandeira para banheiros masculinos, e eventualmente para a prisão: "Do I disappoint you?", abre delicada com o piano minimalista certeiro, termina grandiloquente e é entremeada de orquestrações oníricas. Alguém no orkut disse: - querido, não acredito que exista alguém que ouça Rufus e não compreenda Inglês! – Nem é preciso.


Rufus, o mensageiro, tem mais um recado à América. Desde california, carro-chefe de poses, ele já bocejava: " ...Califórnia, tão maravilhosa que eu prefiro ficar na cama..." , cantava. Em going to a town, vislumbra uma cidade que já foi queimada e onde moram amigos desapontados, para onde ele mesmo partiu, tão logo Bush se reelegeu: "estou tão cansado de ti, América... tenho uma vida para viver, fazer meu próprio caminho para casa..." Ele se cansou da América Republicana, aquela do pescoço vermelho, que acha dois homens se beijando mais perigosos que terroristas. A América que pariu de cesário Walt Whitman, e Allan Ginsberg se perdeu, no pior dos sentidos, lá atrás, no melhor dos sentidos. Os corais dão suporte e densidade ao álbum e à potente voz de rufus, que parece seguir a cartilha Jeff Buckley de cantar com intensidade. Os piores momentos deste e dos outros álbuns ficam por conta dessa mesma voz, especialmente quando ele senta sozinho ao piano e parece que a qualquer momento vai entoar a Ave Maria das seis.


Rufus, o advogado, clama que soltem as estrelas, pois sem elas não haveria a Paramount. A velha Hollywood já não existe mais. Ué, você não sabia?


Between my legs, a melhor do disco, é um rockão estradeiro, daqueles que dá vontade de virar a chave, pisar no acelerador e esquecer que a morte existe e anda por perto. Dá vontade de derramar uma lágrima por entre as pernas, seja lá o que isso signifique. Há uma citação ao fantasma da ópera, que soa quase como uma auto-paródia. Em Rules and Regulations, uma linha de baixo simples e grudenta conduz toda a melodia, acompanhada de um moog debochado, de um sublime naipe de metais, o que já está se tornando clichê, em se falando deste álbum. Em Slideshow são eles que dão a direção. Esta, aliás, uma baladona fodida de linda.O álbum ecoa as trombetas do apocalipse, amparadas em arranjos de cordas angelicais. A mixagem primorosa, a cargo de Marius De Vries, e a produção de Neil Tenant, do Petshop boys, valorizam as cordas e os metais. O dia do julgamento será delicado. Nada a temer, e o inferno não fica muito longe. O céu está na bandeja. É só apertar o play.

Quanto Mais Sujo Melhor


por Rodrigo Sombra

Meses antes de despejar nas prateleiras seu mais novo disco, os rapazolas do Kings of Leon ouviriam de um de seus muitos fãs que uma de suas crias, a balada Trani, figurava no pódio das melhores canções já escutadas pelo tiete. Seria uma bajulação como outra qualquer, não tivesse o gracejo saído da boca de ninguém menos que Bob Dylan. O timbre anasalado do bardo parece ter afrouxado os parafusos da gravidade ao redor daqueles quatro caipiras que, com os olhos arregalados como se estivessem prontos para sair das órbitas, testemunhavam seus joelhos começarem a dobrar-se e as pontas dos pés subitamente se descolarem do solo em suspensão. Passada a levitação delirante encarnada por Caleb, Jared, Matthew e Nathan Followil, o encontro sinalizava ao menos duas coisas: primeiro, o selo de aprovação do grão-mestre da cultura pop americana; segundo – e mais importante ainda -, sugeria que após cinco anos de estrada, a banda finalmente despistava a fugacidade do hype que vinha engasgando desde os tempos de sua incensada estréia.
Em sua terceira vinda, o àlbum Because of the Times, o clã Followill se recusa a descansar numa proposta sonora revisionista ou ser refém das tendências de ocasião. A difícil opção pelo caminho do meio, entretanto, não parece ter desorientado o quarteto de Nashville. Ao mirar o retrovisor do tempo, a banda fita a poeira elevada no passado, sem sinais de saudosismo e aponta para um sotaque cada vez mais autoral às suas ambições. Mais sujo, básico e enfezado que seus antecessores, o novo disco revela que o pulo de cerca que desviou o Kings of Leon da rota do contry rock à Linyrd slynird, The Band e Creedence Clearwater Revival não deixou seqüelas, mas a sugestão de que a maioridade anunciada no debut Youth and Young Manhood se avizinha.

A deixa para perceber o norte tomado pelo grupo vem desde a faixa inicial. O relato de uma gravidez adolescente em Knocked Up se equilibra em sete minutos costurados por uivos soturnos e guitarras sombrias, tornando um mote facilmente derrapável em pieguice juvenil num consistente hino escapista. Depois da amargura épica da primeira inaugurar a estranheza, a confusão de referências surpreende ainda mais na explosiva Charmer. Seja no canto rascante ou no baixo hipnótico, aqui não existe acanho qualquer em se arregaçar as mangas das camisas de flanela e saudar aquela que parece hoje tão longínqua (datada?) Seattle dos primeiros anos 90.

Se fivelas e esporas parecem ter ficado para trás, o mesmo não se pode dizer dos versos irreverentes ainda intocados no texto das canções. O desbunde habitual retornaria no rock garajeiro Black Thumbnail. Aqui, um Caleb Followill acossado por seus demônios interiores atropela a auto-piedade e aposta num determinismo irresponsável e fanfarrão (I aint to proud to say but thats how I'm made/ I'll be that person 'til my dying day/Your beauty, it still brings me to my knees/Don't waste a tear on me, this is my disease ). A safra de anedotas groupies não borbulha a libertinagem de antes, mas elas ainda estão aqui, mesmo quando cheiram a desilusão: “Awful sick and tired of the game/She comes from nothing/Hoping for a taste of fame”, lamenta Caleb na balada ressaquiada The Runner. As letras seguem se alternando entre desenganos afetivos, nas guitarras reggueiras de Ragoo, e promessas de amor pueris, como na dispensável True Love Way.

Because of the times transpira a vida na estrada. Mais do que alimentar a fábula dos jovens Followill rodando a América sob a batuta de um pastor itinerante que apregoava Cristo com uma mão e bebericava uísque com a outra, o disco é a prova musical da rotina hedonista desses nômades beberrões e sexualmente aventureiros. Em Fans, a banda assume o pedestal de rockstars e convida seus seguidores a andanças perpassadas por marcas de batom e noitadas nubladas em Londres. Extraviada no tempo, Camaro e seus riffs pegajosos remetem a algum lugar em que carangos desembestados e um par de pernas troncudas ainda demarcam as fronteiras do imaginário roqueiro. Mas a estrada nem sempre é o endereço de prazeres sem fim. Inadequação social, intolerância provinciana e redomas idealizadas também invocam a fuga, encorpando o cardápio de canções e salvando o disco de se perder numa descartável egotrip desordeira.

Não compre a rabugice de quem vai torcer o nariz e desprezar o Kings of Leon como mais uma bandoca efêmera condenada apenas a cumprir tabela no circuito da música pop. Se o rock já não consegue mais ser perigoso há muito tempo, as travessuras errantes do youg guns do Tennesse ainda garantem alguma diversão.


Download:
Kings of Leon - Because of the Times - Parte 1
Kings of Leon - Because of the Times - Parte 2

Paisagem na Janela

por Ledson Chagas

Violões, batida de limão, as conversas sobre arte e política, aquele clima saudável de acolhimento familiar (bem diferente da imagem das “pessoas na sala de jantar”), sonhos e juventude. Essa é uma imagem que pode retratar bem o que era o Clube da Esquina. E para a decepção de músicos americanos como o guitarrista Pat Metheny ou o tecladista Lyle Mays, o “Corner’s Club” não havia sido edificado com blocos e cimento, mas sim, com muito talento e criatividade. Imagens como a dos meninos Lô Borges e Beto Guedes se conhecendo por causa de uma patinete e, mais tarde, em sua banda cover dos Beatles, a The Beavers, ou ainda, a de um certo “Wilton” (Nascimento) e sua W’s Boys (com os amigos Wagner Tiso, Waltinho, Wilson e Wanderley) lá pelos idos de 1963, revelam que a musica e a amizade foram os verdadeiros alicerces desse “movimento musical”.
E se os gringos tem a esquina da Haight com a Ashbury como uma de suas mecas da música, no Brasil, foi no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Santa Teresa (MG), que se consolidou a sonoridade do grupo de amigos que resultaria no clássico álbum de 1972,o Clube da Esquina. Bituca (Milton), Lô e Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Toninho Horta, Beto Guedes, Wagner Tiso, Novelli... enfim, os mineiros haviam plantado uma semente que germinaria. E por maior que tenha sido o reconhecimento ao seu trabalho, como o sucesso de suas músicas, a sólida carreira, inclusive internacional, de Milton Nascimento e Toninho Horta (melhor guitarrista de 1977 pela revista Melody Maker) e os discos solo de Lô Borges e Beto Guedes, o grande legado desse álbum, dessa sonoridade, foi a influência que se perpetuaria nas veias da MPB, do rock nacional, do jazz americano e vários outros segmentos da música nacional e internacional. Do progressivo do Terço ao pop do 14 Bis, do Jazz de Wayne Shorter e Herbie Hancock ao rock rural de Sá, Rodrix e Guarabyra, dos experimentos do grupo UAKTI á música latino-americana do Grupo-Água e do Tacuabé. Tudo isso tem um pouco do DNA do Clube.

Sou do mundo, sou Minas Gerais

Lançado em 1978 pela EMI-Odeon, com produção de Milton, Novelli e Ronaldo Bastos, o álbum duplo Clube da Esquina 2 (não vá confundir com o primeiro, Clube da Esquina, de 1972) é o exemplo de álbum que deve ser ouvido várias vezes (acredite no velho clichê dessa vez) para a captação de seus mínimos detalhes, tanto nas letras quanto nos seus vários instrumentos (que vão do charango e o bambu aos cellos e violinos). A rica sonoridade reúne da música sul-americana do Tacuabé á verve cubana de Pablo Milanês, além de samba tocado pelo Azimuth. Definitivamente, não é um material de fácil apelo para quem está acostumado com uma música mais... ”extrovertida”. A primeira faixa, Credo, é iniciada com um trecho de San Vicente (do álbum de 72) cantado em coro. Porém, o que era influência se torna parceria, e o grupo Tacuabé reproduz a sonoridade latina emulada no primeiro álbum. A bela Nascente, um poema quente e delicado cantado por Milton e Flávio Venturinni, traz Francis Hime num ótimo trabalho ao piano. Em Ruas da Cidade, a letra de Márcio Borges lembra que cidade com nome de índio é muito mais chacota que homenagem (Guajajaras, Tamoios, Tapuias, Tupinambás, Aimorés/Todos no chão/A cidade plantou no coração tantos nomes de quem morreu/Horizonte perdido no meio da selva/Cresceu o arraial). Flávio Venturinni acompanha ao órgão a voz melancólica de Lô Borges e a gaita tristonha de Maurício Einhom.

A mais bonita do álbum, Paixão e Fé, traz a religiosidade (musical) do Clube, numa critica à privação exigida pelo cristianismo. O bandolim de Beto Guedes lembra uma harpa natalina e o coro dos Canarinhos de Petrópolis dá o tom “solene” da letra cantada por Milton (um fantástico arranjo vocal de Vermelho e Tavinho Moura). Destaque também para Venturinni no piano e orgão. Casamiento de Negros é a adaptação de uma música folclórica do Chile feita por Violeta Parra (1917-1967). A artista foi influência para a renovação da música latinoamericana (tanto em seu país, com o movimento “Nueva Cancion Chilena”, quanto em Cuba, com a “Nueva Trova Cubana”) promovida pelo encontro entre o pop e o folclore. Olho-D’água, de Paulo Jobim e Ronaldo Bastos, é interpretada de forma tensa e dramática por Milton e os Canarinhos de Petrópolis. João Donato toca piano e trombone e, junto com os cellos de Jaques Morelenbaum, empresta mais dramaticidade à música. A letra é enigmática, citando o nome de pessoas que sumiram (possíveis vítimas da ditadura militar?) e de cidades. Canoa, Canoa tem um outro ótimo trabalho no arranjo vocal de Milton. Um instrumento chamado bambu insere o ouvinte num rio calmo perdido na selva, lar dos Avacanoê, etnia indigna da família Tupi-Guarani citada na música. A primeira parte do álbum traz ainda a parceria entre Milton e Rui Guerra (E daí?) e a música dupla cantada por Milton e Elis Regina (O que foi feito deverá/ O que foi feito de Vera).

Um pouco mais fraca, a segunda parte do álbum duplo é iniciada por Canção Amiga, um poema de Carlos Drummond de Andrade de 1948 (o mesmo da cédula de 50 cruzados novos). Praticamente recitado por Milton, é acompanhado pela voz singela do menino Kiko, entoando uma bela melodia, além dos cellos e flautas que embalam os caminhos citados no breve acalanto. Cancion por la Unidad de Latino América, composição de Pablo Milanês e Chico Buarque, tem seus versos em português e espanhol interpretados por Chico e Milton. Uma típica “canção-contexto”, contempla a História em si e aquilo que se tornava história naquele momento (Quem vai impedir que a chama/Saia iluminando o cenário/Saia incendiando o plenário/Saia inventando outra trama). O coro nos últimos versos é um dos poucos elementos que lembra o som dos mineiros nessa música, um pouco deslocada do álbum. O contrário acontece em Dona Olímpia. Música de Ronaldo Bastos e Toninho Horta, carrega a assinatura desse último e, no entanto (talvez por isso mesmo), é muito “Clube da Esquina”. Tem o melhor (um dos poucos) solo de guitarra do álbum. Curto e intenso.

A melhor música do segundo disco é Testamento, de Nelson Ângelo e Milton, uma “dança-das-cadeiras” entre os elementos do “poema do índio”. Tem uma ótima percussão, cellos e trombones, mas o arranjo vocal certamente é a preciosidade dessa música, além do solo de bambu no final e a flauta de Danilo Caymmi. Maria, Maria, uma das mais famosas, tem aqui a melhor de suas muitas interpretações. Com pouco mais de 3 minutos, consegue proporcionar dois momentos geniais do gênio (perdoem a redundância) de Milton Nascimento. De que dimensão esse homem tirou aquele simples e belo larárá que se inicia a 01:20 de música? De onde veio o coro tribal que corre a partir de 02:30? Isso, talvez nem ele mesmo saiba. E nada como Que bom, Amigo para finalizar esse álbum. O verso “Que bom, amigo/Poder dizer o teu nome a toda hora/A toda gente” toca qualquer um que tenha um amigo de verdade e saiba o quanto é satisfatório o simples ato de dizer o nome daquela pessoa que se gosta. A música estabelece diálogo com o final de Cais (do álbum de 72) e é uma síntese da sonoridade dos mineiros. Está lá a tensão do arranjo de Wagner Tiso, o poderoso coro, a beleza das flautas e a voz de Milton Nascimento. Enfim, o bom e velho Clube da Esquina.

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